Educação financeira

Querer ou precisar: como ensinar a diferença às crianças

É a pergunta mais poderosa da educação financeira infantil, e cabe em duas palavras. Quando a criança aprende a fazê-la sozinha, o "eu quero" no corredor do supermercado muda de tom.

  • A partir dos 3 anos
  • 5 min de leitura
  • Atividade para fazer em casa

Resposta rápida

Precisar é o que faz falta para viver e cuidar de nós: comida, roupa, remédio, escola. Querer é o que dá prazer, mas dá para viver sem: o brinquedo novo, o sorvete, o jogo. Ensina-se com exemplos do dia a dia, nunca com sermão, e admitindo que querer também é bom: o segredo está em escolher.

A diferença, sem julgamento

Precisar é tudo o que faz falta para viver, crescer e cuidar de nós e dos outros: comida, água, roupa, um lugar para morar, remédio, escola.

Querer é o que dá alegria e conforto, mas dá para viver sem: o brinquedo da moda, a segunda bola, o lanche na saída da escola.

O ponto que muda tudo: querer não é errado. Uma criança que ouve "isso é só um querer" como acusação aprende a esconder a vontade, não a lidar com ela. A ideia é outra: primeiro cuidamos do que precisamos; do que sobra, escolhemos, com calma, alguns quereres.

E há uma zona cinzenta que vale a pena explorar em voz alta: um tênis é necessidade; aquele tênis, o mais caro, é um querer em cima de uma necessidade. Separar as duas partes é um exercício que até adultos precisam fazer.

A pergunta que a criança aprende a fazer sozinha

O objetivo não é os pais decidirem por ela. É a criança ganhar um hábito: parar um segundo antes de pedir e perguntar a si mesma "eu quero ou eu preciso?".

Três perguntas ajudam a responder:

  • "O que acontece se eu não tiver isso?" (nada de grave, é um querer);
  • "Eu já tenho algo que faz o mesmo?";
  • "Vou querer isso ainda na semana que vem?"

No início, você faz as perguntas em voz alta e ajuda a responder. Em poucas semanas, a criança começa a fazê-las sozinha. Esse é o momento em que a lição pegou.

Cinco situações reais para praticar

No supermercado

Antes de sair, façam a lista juntos e separem em duas colunas: precisamos e queremos. Na loja, o que não está na lista fica para a próxima conversa.

Na mochila da escola

O caderno novo porque o outro acabou é necessidade. O estojo novo porque o colega tem um igual é querer. Os dois podem acontecer; a ordem é que importa.

No aniversário

Deixe a criança escolher um presente entre dois. Ter de escolher é a melhor prática de "querer", porque não há resposta errada.

Com a mesada

O dinheiro dela é para quereres. Se ela decidir gastá-lo, ótimo; se decidir guardar para um querer maior, melhor ainda. Não intervenha.

Em casa, com a família

Fale das escolhas dos adultos em voz alta: "este mês precisamos consertar o carro, então o passeio fica para o próximo". A criança aprende vendo.

Por idade

  • 3 a 5 anos: só o par de palavras, com objetos concretos na mão. "Água: precisa. Bolacha de chocolate: quer." Sem explicações longas.
  • 6 a 8 anos: a lista de compras em duas colunas e a pergunta "o que acontece se não tiver?". É a idade certa para começar a mesada.
  • 9 anos ou mais: a zona cinzenta (a necessidade com um querer em cima) e a ligação com o orçamento da família.

O que evitar

  • Usar "é só um querer" para dizer não. A frase vira sinônimo de negação e a criança deixa de usá-la.
  • Fingir que os adultos não têm quereres. Mostrar os seus, e como escolhe entre eles, ensina mais do que qualquer regra.
  • Corrigir a classificação da criança na hora. Se ela disser que o brinquedo é "precisar", pergunte "o que acontece se não tiver?" em vez de discordar.
  • Transformar tudo em lição. Uma conversa por semana, num momento real, vale mais do que dez sermões.

Jogo rápido

Querer ou precisar?

Jogue com a criança: 8 cartas, uma pergunta. Ela responde, você confere.

Ative o JavaScript para jogar.

Atividade para fazer em casa

A mesa das duas caixas

  1. Prepare duas caixas (ou dois pratos) e escreva em cada uma: Precisamos e Queremos.
  2. Recortem ou desenhem 10 a 12 coisas: pão, leite, remédio, escola, chocolate, boneco, sorvete, tênis, bicicleta, livro, sabonete, videogame.
  3. A criança distribui as imagens pelas caixas, uma a uma, dizendo por quê.
  4. Conversem sobre as dúvidas. O tênis, o livro e a bicicleta costumam gerar discussão boa: dependem da situação.
  5. Feche com uma escolha real: "da caixa Queremos, se pudesse levar uma só coisa esta semana, qual seria?"

Leva 15 minutos e pode ser repetida com coisas novas sempre que surgir um pedido no supermercado.

"Nunca digo 'isso é só um querer'. Pergunto 'o que acontece se você não tiver?'. A resposta é da criança, e por isso ela acredita nela."

Elaine Sales, economista e fundadora da Filhos Mais Ricos

Perguntas frequentes

Com que idade a criança entende a diferença entre querer e precisar?

A partir dos 3 anos ela já distingue, com exemplos concretos na mão. A pergunta "o que acontece se eu não tiver?" começa a fazer sentido por volta dos 6 anos.

Como responder ao "eu quero" no supermercado sem briga?

Combine a lista antes de sair e uma regra clara: o que não está na lista não vem hoje, mas pode entrar na conversa da próxima semana. A criança sabe o que esperar e o pedido deixa de ser uma disputa.

Querer é errado?

Não. Querer faz parte de gostar das coisas. O que se ensina é a ordem (primeiro o que precisamos) e a escolha (não dá para ter todos os quereres ao mesmo tempo).

E quando a criança diz que um brinquedo é "precisar"?

Em vez de corrigir, pergunte o que acontece se ela não o tiver e se já tem algo que faz o mesmo. Deixe a criança chegar à resposta; a classificação feita por ela vale mais do que a sua.